Escândalo que superfaturou milhões em cachês de artistas pagos com verba pública na Bahia ganha repercussão.

17/06/2026

Mais de 10 anos de relatórios do TCE e centenas de notas fiscais apontam para envolvimento de produtoras e laranjas. Ex-gestor da Sufotur, Diogo Medrado, está no centro das auditorias. MP-BA investiga lavagem de dinheiroEsquema movimenta milhões de reais para contratação de shows e eventos
Um esquema envolvendo produtoras de shows e que durou pelo menos de 2015 a 2024 superfaturou em milhões os cachês de artistas pagos com verba pública na Bahia. O caso foi revelado por uma investigação da TV Bahia, que analisou mais de 10 anos de relatórios do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e centenas de notas fiscais que apontam as irregularidades.
Entre os citados estão pelo menos quatro empresas produtoras de eventos, pessoas usadas como “laranjas” e o ex-gestor da Superintendência de Fomento ao Turismo da Bahia (Sufotur), órgão vinculado à Secretaria de Turismo (Setur), Diogo Medrado. Ele negou irregularidades nas contratações feitas enquanto esteve à frente do órgão. (Confira o posicionamento completo ao final do texto)
O total de gastos da Sufotur até 2026 foi de R$ 1,84 bilhão. A receita começou em 2019 com R$ 79 milhões e chegou a R$ 623 milhões em 2024, ano em que Medrado deixou definitivamente a gestão da pasta. No período, o crescimento registrado foi de quase 700%.
Somente entre os anos de 2023 e 2025, quando nasceu a Sufotur a partir da reestruturação da Empresa de Turismo do Estado da Bahia (Bahiatursa), foram registrados 641 pagamentos para as quatro produtoras, totalizando R$ 58 milhões.
Apuração revela que empresas com os mesmos sócios e endereços “fantasmas” teriam inflado cachês de artistas para desviar dinheiro público na Bahia.
SALVADOR – Um complexo esquema de desvio de dinheiro público, estruturado através da contratação superfaturada de artistas, está sob a mira dos órgãos de controle na Bahia. Investigações apontam que uma rede de produtoras, com fortes indícios de serem empresas de fachada, movimentou milhões de reais em contratos com a Superintendência de Fomento ao Turismo do Estado (Sufotur) e sua antecessora, a Bahiatursa.
A rede de empresas
A apuração expôs um padrão operacional suspeito: produtoras como Brilho Estrelar, Estrelar Produções, Tamy Produções e Nível Dez compartilham endereços, e-mails e quadros societários formados por integrantes de uma mesma família.
Em uma abordagem surpresa feita pela reportagem, Alexsandro Sampaio, apontado como responsável pela Nível Dez — empresa que recebeu mais de R$ 10 milhões em verbas públicas —, admitiu o funcionamento do esquema. Sem saber que era gravado, ele detalhou a relação familiar entre as empresas. Posteriormente, Sampaio negou ter se beneficiado dos valores, alegando que sua rotina de trabalho (como office boy) não condiz com o montante milionário movimentado pela firma.
Cachês inflados e artistas alheios
O modus operandi consistia em contratar artistas de pouca visibilidade por valores muito acima do praticado no mercado. O sobrepreço, em alguns casos, chegava a ser exponencial. A cantora Emily Ferraz, por exemplo, teve um show privado negociado por R$ 8 mil, enquanto o Governo da Bahia pagou, em média, R$ 71 mil por sete apresentações da mesma artista — um montante superior a R$ 500 mil.
Artistas ouvidos pela reportagem, sob condição de anonimato, relataram que as produtoras exigiam a emissão de notas fiscais com valores inflados para viabilizar o esquema. A maioria das atrações, segundo a apuração, não tinha conhecimento real das cifras astronômicas que eram empenhadas em seus nomes.
O papel da gestão
As irregularidades, apontadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) desde 2015, incluem o uso indevido da inexigibilidade de licitação. O mecanismo, que deveria ser restrito a grandes atrações com notório reconhecimento, foi utilizado para contratar artistas de menor expressão, sem a devida justificativa técnica de preços.
Diogo Medrado, que presidiu a Bahiatursa entre 2014 e 2022 e foi mantido na gestão da Sufotur, figura como o nome central nas auditorias. Além de multas aplicadas pelo TCE, o gestor é citado em relatórios por não entregar documentos solicitados pelos auditores e por manter o órgão com contas desaprovadas nos anos de 2019, 2020 e 2021. Relatórios recentes ainda indicam que o orçamento do órgão cresceu 607% em 2023, com despesas assumidas sem previsão orçamentária, prática que especialistas em Direito Público consideram ilegal.
O que dizem os citados
Diogo Medrado e Sufotur: Em nota, a defesa de Medrado e a própria Superintendência negaram qualquer irregularidade, afirmando que as contratações seguiram rigorosamente a legislação vigente e foram validadas pelos setores jurídicos. Destacaram, ainda, a colaboração constante com os órgãos de controle.
Ministério Público da Bahia (MP-BA): O órgão informou que existem dois procedimentos em andamento: um inquérito civil para ajustar as contratações e um procedimento de investigação criminal (em segredo de justiça) para apurar crimes contra a administração pública e lavagem de dinheiro.
Produtoras e Artistas: A cantora Emily Ferraz reiterou desconhecer o superfaturamento e atribuiu a responsabilidade contratual à produtora Brilho Estrelar. Os representantes desta empresa não se pronunciaram sobre as acusações.
Enquanto o inquérito corre em segredo de justiça, os envolvidos podem enfrentar, caso condenados, penas que variam da inabilitação para cargos públicos por 8 anos até prisão por lavagem de dinheiro, com multas que podem chegar a R$ 20 milhões.
Fonte: TV Bahia/ G1